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Bolsonaro ataca acordo entre WhatsApp e TSE para eleições

Os ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral são uma rotina em seu governo.

16/04/2022 às 12h04
Por: Pablo Carvalho Fonte: Folha de São Paulo
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Bolsonaro ataca acordo entre WhatsApp e TSE para eleições

O presidente Jair Bolsonaro (PL) atacou o acordo entre o WhatsApp e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para que a nova ferramenta do aplicativo que permite grupos com milhares de pessoas só comece a funcionar no Brasil após o segundo turno das eleições.

"E já adianto que isso que o WhatsApp está fazendo no mundo todo, sem problema. Agora, abrir uma excepcionalidade no Brasil, isso é inadmissível e inaceitável", disse Bolsonaro em meio a uma motociata, nesta sexta-feira (15), no interior de São Paulo.

"Não vai ser cumprido esse acordo que porventura eles realmente tenham feito com o Brasil com informações que eu tenho até esse momento."

Depois, em discurso em Americana diante de milhares de simpatizantes na cidade e de participantes da motociata, o presidente repetiu os ataques, falando em "discriminação" e "acordo sem validade".

"Censura, discriminação, isso não existe. Ninguém tira o direito de vocês nem por lei quem dirá por um acordo. Esse acordo não tem validade", disse, ao repetir que todos devem "jogar dentro das quatro linhas" da Constituição. "O Brasil seguirá livre custe o que custar."

Bolsonaro, porém, não disse como poderia impedir esse acordo, já que se trata de um compromisso entre uma empresa privada e um braço do Poder Judiciário. O caminho legal para o presidente seria o uso da AGU (Advocacia-Geral da União), por exemplo, para recorrer ao próprio TSE.

A fala do presidente se refere ao fato de o WhatsApp ter lançado nesta quinta (14), em estágio experimental, um novo recurso chamado comunidades, que funcionará como um guarda-chuva abrigando vários grupos com milhares de usuários.

Na prática, trata-se de um grande grupo de grupos, que pode ter milhares de membros, com toda a comunicação criptografada. Hoje, cada grupo de WhatsApp tem, no máximo, 256 integrantes. O recurso estará em teste com alguns usuários nos próximos meses.

Procurado após as declarações do presidente, o WhatsApp disse que não tem nada a comentar sobre o assunto.

O WhatsApp se comprometeu com o TSE a não estrear as "comunidades" no Brasil antes do eventual segundo turno da eleição presidencial, marcado para 30 de outubro.

A empresa, porém, não promete segurar o lançamento das comunidades entre o segundo turno e a posse presidencial no Brasil.

Nos Estados Unidos, na eleição presidencial de 2020, grande parte da desinformação que culminou na invasão do Capitólio em 6 de janeiro circulou após a votação, principalmente pelo YouTube. No Brasil, o WhatsApp foi o principal veículo de desinformação política na eleição de 2018.

Em entrevista à Folha, Will Cathcart, presidente global do WhatsApp, disse não temer que o "comunidades" signifique um retrocesso na luta contra a desinformação.

"Estamos desenhando o produto de forma cuidadosa, com intencionalidade. Há vários produtos no mercado que não foram pensados com o mesmo cuidado. Conseguiremos oferecer um recurso muito útil para os usuários, ao mesmo tempo em que teremos decisões cautelosas de design para combater desinformação", disse.

A motociata com Bolsonaro reuniu milhares de participantes nesta sexta em um trajeto entre a cidade de São Paulo e o município de Americana, a 130 km da capital.

O ato reuniu motoqueiros portando bandeiras do Brasil e entoando gritos de apoio ao presidente e interditou a pista sentido interior da rodovia dos Bandeirantes por aproximadamente cinco horas. O ex-ministro Tarcísio de Freitas, pré-candidato ao Governo de SP, também participou.

O governo do estado ainda não divulgou uma estimativa oficial de participantes.

Com o nome de Acelera para Cristo, a motociata teve entre seus organizadores o empresário Jackson Vilar, que também se apresentou como o organizador da primeira edição do evento, no ano passado, em São Paulo.

As motociatas em apoio ao presidente já custaram ao menos R$ 5 milhões aos cofres públicos, segundo levantamento realizado pela Folha a partir de mais de 50 pedidos via Lei de Acesso à Informação. A soma leva em conta as despesas com o cartão de pagamento do governo federal e os gastos assumidos pelos estados para garantir a segurança da população e da comitiva de Bolsonaro.

Para a manifestação desta quinta, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirma que o reforço do policiamento teve um efetivo de mais de 1.900 policiais militares e vai custar de R$ 1 milhão ao estado.

Os ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral são uma rotina em seu governo. No passado, por exemplo, afirmou diversas vezes sem apresentar provas que havia vencido as eleições de 2018 no primeiro turno.

A crise institucional de 2021, patrocinada por Bolsonaro, teve início quando o presidente disse que as eleições de 2022 somente seriam realizadas com a implementação do sistema do voto impresso -apesar de essa proposta já ter sido derrubada pela Câmara.

No ano passado, ele também fez uma transmissão ao vivo para apresentar supostas provas que tinha contra a confiabilidade das urnas e que o pleito havia sido fraudado. No entanto, apenas levou teorias que circulam há anos na internet, sem comprovação.

Naquela live recheada de mentiras, Bolsonaro divulgou documentos de uma investigação sigilosa aberta em 2018 sobre um ataque hacker no sistema do TSE.

Por causa disso, Bolsonaro virou alvo de investigação. A delegada Denisse Ribeiro, da Polícia Federal, já enviou ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, a conclusão segundo a qual ocorreu crime na atuação do presidente naquele caso.

Mesmo sem o indiciamento formal, essa foi a primeira vez que a PF imputa crime ao presidente no âmbito das investigações que tramitam sob a relatoria de Moraes.

As declarações de Bolsonaro dos últimos meses interromperam cerca de seis meses de trégua, que até seus aliados mais próximos sabiam que não duraria muito tempo.

A calmaria vinha desde setembro passado, quando, diante da reação dos Poderes contra suas ameaças golpistas, divulgou uma nota na qual afirmava que não teve "nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes" e atribuiu palavras "?contudentes" anteriores ao "calor do momento".

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